
Eu sou uma criança incorrigível: não há mais saída pra mim.
Eu creio em cavalo azul que respira música pelas narinas.
Sou anacrônico, talvez; eu creio em mulheres de vento que dançam tango rente às águas e mergulham nas águas pra colher anêmonas no fundo do mar.
É óbvio que a poesia é algo pra depois da morte física. Somos urdidos com milhões de fótons. Fóton: unidade de energia luminosa: a menor partícula possível da matéria.
Não é possível ver um fóton a olho nu; então estamos falando do invisível, que é um excesso de não ser.
O que em nós é invisível ressuscita: a música é invisível; a voz é invisível; o perfume é invisível.
A palavra, que guarda em si resquícios de um hálito, é igualmente invisível.
Niels Bohr diz textualmente: "Num pingo que faço, com a caneta, nessa folha de papel, há 10 milhões de átomos e 100 milhões de fótons".
Eu creio num fogo nas caves do pulmão; eu creio na barca da palavra, no sopro do abismo; eu creio, sim, na ressurreição, não do corpo, mas de nossa Tocata e Fuga visceral.
Um comentário:
José Fernando, dessa vez você foi demais.
Ao se descrever, ou descrever alguma ficção tua, acabou me descrevendo. E muito bem.
Estava dia desses comentando com um colega sobre a poesia, e lhe falava que creio que escrevemos porque temos grande medo da morte, deste fim físico.
Quem sensação de leveza e peso depois de ler esse teu texto.
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