segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Moutty, 2010

Feto de um delfim.

A noite acaba feito gim. O senhor K. não é uma criatura débil como uma haste de verbena; e até afirmou, em determinada ocasião, que o excesso é fundamental; que o excesso leva ao Castelo da Pureza; disse, igualmente, que a vida lhe fugia em cada sopro que vazava dos lábios finos do destino. Tinha um olhar, o senhor K., de ser gerente do The Bay Hotel --- mas ele é o gerente do The Bay Hotel ---, apenas esqueceu por um instante. Seus primeiros pensamentos da manhã já se parecem com os seus últimos pensamentos do dia. A cabeça, a do senhor K., mais bruta do que a cabeça do açougueiro Hamm. Apenas o tédio é, nesse meio-dia de verão, mais bruto, e cáustico. Não aspira, o senhor K. não aspira nunca ao céu. Como Orfeu, parece que está sempre recolhendo no vaso da alma, a um só tempo, um sáurio gravemente ferido e uma deusa com tímpanos de chuva. A noite acaba feito gim. Foi sugerido ao senhor K. que, entre as cinco irmãs — escolhesse uma—, e o senhor K. apontou para Joana, a única a quem a natureza tinha dado todas as rosas do amor. Todas as outras quatro irmãs mais pareciam ter seiva de areal, isto é, eram secas. Eu convido Joana para as fadigas de uma noite de núpcias ou o lúbrico serpentário da língua na nuca. Joana, a boa menina, lânguida após um copo de gim ou mais lânguida se o senhor K. tenta acariciar o musgo molhado entre suas coxas. A noite acaba feito gim. Joana guarda no relicário íntimo a sua fragilidade e a razão de preferir uma Cassiopéia boreal a uma longa temporada no Gehenna fumegante; entre ácaros e lesmas, entre chifres e cascas de cigarra. Um sopro inaudível conta à Joana que ela sabe mais que as plantas e os peixes; que ela sabe mais que os santos. Joana morena, olho verde, cabelo comprido. Por causa dela o galã da noite --- o senhor K.--- poderia até entoar antífonas religiosas na Ilha da Ilusão ou, após beber litros de gim, cairia de língua nas peles, nos pêlos dessa Joana de circunstância --- dessa mulher que enxágua retinas --- e se entrega, de quatro, feito uma piscina molhada, ao senhor K.. A noite acaba feito gim.

Fritz Henle 1975

Se não se escutam as folhas do arvoredo, Lucana gasta os olhos numa página avulsa do poeta Almafuerte: yo soy un palmar plantado sobre cal e pedregulho. Os vocábulos lidos na frase anterior já estão mortos, derrotados, e unicamente a retina do leitor pode trazê-los à vida com um sopro. Se o vocábulo é sopro e o sopro é vida, sopramos em yo, sopramos em soy, sopramos em un, sopramos em palmar, sopramos em plantado, sopramos em sobre, sopramos em cal, sopramos em e, sopramos em pedregulho. Lucana confessa ao palmar plantado: “Eu sou uma daquelas víboras descascadas junto à fonte fria. Com pinças curvas eu arranco o cérebro dos fariseus – gruta com lesmas – pelas fossas nasais. Eu, com um garfo de ouro, faço um talho na cara da prosódia sonolenta e, debaixo do chuveiro, tento captar, apesar da água torrente, o sentido das palavras em Fernando Pessoa: ‘Atinjo a força de palavras, não para realizar a obra que eu nunca poderia realizar, mas ao menos para dizer com simplicidade por que razões não a realizei’. No espelho, enquanto me enxugo, verifico que na alma continuo sendo uma daquelas gueixas com neve no negro cabelo. Escuto a balada de Narayama e, com a colherinha de açúcar, faço nevar no espírito do chá”.

Paulo Leminski (1944-1989)

Schopenhauer (1788-1860)

Há um pensamento do filósofo alemão Schopenhauer, que li em "O Mundo como Vontade e Representação", que reza assim:

O ponto em que a Coisa-em-si entra mais imediatamente no fenômeno é aquele em que a consciência ilumina a Vontade.

A Vontade é, para Schopenhaeur, irracional. A Vontade, no fundo, não sabe o que quer. E, para educá-la, só há uma saída: focarmos as coisas que nos cercam (ou as coisas que imaginamos) com o Vazio da contemplação tranqüila, sem intenção, desapegada.

Segundo Kenzo Awa, mestre do Kyudô (Caminho do Arco), se quisermos acertar o alvo, devemos proceder assim: “Na máxima tensão, sem intenção”.

Algo dispara a flecha, Algo acerta o alvo.

Algo: outro nome para o Deus, para a quintessência.

Mas também Algo

diz pára de ressentimento

diz pára de medo

diz pára de mentir

diz pára de sofrer

diz pára de desamor

diz pára de pobreza

O Eu, que só será Eu se for um Vazio reverente, se torna o claro espelho do objeto. Wu wei: ação na não ação. Noutras palavras, o Eu deixa fluir, reverente, o Algo que o rege no íntimo; o Eu não se intromete, deixa a onda jorrar, a música ser música.

Vazio (Capítulo 1 do Tao): “Não sendo, podemos contemplar sua essência”.

Objeto (Capítulo 1 do Tao): Sendo, apenas vemos sua aparência”.

O Deus, segundo o Evangelho são João, “é Espírito”. E, sabemos, o Espírito sopra onde quer.

Se me permitem um exemplo: Na máxima tensão, o Eu profundo de cada um de nós contempla, sem intenção, a seguinte cena prosaica: um bule que verte chá fervente na toalha de linho. A Coisa-em-si (que é libérrima e irracional por natureza) é que retém a potência profunda do que está acontecendo com este bule que verte chá fervente na toalha de linho. Se o Eu se intrometer nesta imagem do bule que verte chá fervente na toalha de linho, o Eu só terá a fantasia, a farsa, e se transformará num bicho peludo de longas patas, mais conhecido como ego. Por outro lado, se o Eu deixar fluir a Coisa-em-si deste bule que verte chá fervente na toalha de linho, aí o Eu terá a presença do Algo, do Deus que, respeitado em sua ancestralidade, virá à tona e revelará ao Eu todo o Seu Mysterium.

E sendo Mysterium, é improviso, é Vita Nova, é Algo, é o Deus, é paraíso, é jazz do coração.

Nunca é demais recordar a etimologia do vocábulo Deus: vem do sânscrito –, onde é grafado D'jeus e significa lua clara no céu: mente silenciosa, sem sonhar.

De onde se conclui que o Deus, tendo forma lunar, é o feminino.

O Deus, o Algo, é luz, é consciência.

A quem o Deus serve, a quem o Algo serve? A todo Eu que tiver consciência do Deus, do Algo.

Quando pronuncio a palavra feminino, não me refiro à mulher, mas ao Ser, que tanto pode ser macho ou fêmea.

Há homens que são mais femininos que as mulheres.

O cano do canhão é o pênis masculino; os edifícios pontiagudos são pênis masculinos; o punhal é o pênis masculino.

A árvore é feminina; a pérola é feminina; o vento é feminino.

A Coisa-em-si: aquilo que independe do espaço e do tempo.

A Coisa-em-si independe da causa e do efeito.

Segundo Platão, uma Idéia é aquilo que sempre é, mas nunca vem a ser, nem deixa de ser.

Idéia: objetividade imediata da Coisa-em-si.

Para Schopenhauer, a Coisa-em-si é pulsão vital (a Trieb freudiana: força vital). Pulsão como discernimento vital? Ainda mais: pulsão como discernimento vital do discernimento vital.

Pulsão (a partir de um aforismo de Lacan): objeto jamais fixável de uma vez por todas.

Fixar o que não pode ser fixado, isto é função da arte que cria a consciência que ilumina a Vontade.

Para Schopenhauer a maior das artes é a música. Ele a menciona em "O Mundo como Vontade e Representação": se tudo findasse, ainda não findaria a música.


O texto acima, inédito, é um fragmento do livro O cacto e o angorá (o aqui e o agora) – A arte vazia do arqueiro de palavras, de Fernando José Karl.

Miran

Em busca do tempo perdido




Abdullah Frères

Constantinople. Pointe du Sérail


1870

Em busca do tempo perdido




Abdullah Frères

Constantinople. Mosquée d'Ortakeuï


1870

Em busca do tempo perdido




Pascal Sebah

Palais de Dolma Bahchè (Bosporus Palais Dolma Bagdsche)


1887

Em busca do tempo perdido




James Robertson

Imperial Gate of the Seraglio, view of the entrance of the Serail, Constantinople


1855

Em busca do tempo perdido



James Robertson

Environs de Constantinople. Sultan Selim. Scutari


1854

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Frida Kahlo (1907-1954)

K. escreve uma carta ao filósofo Hervum: “A Jarra de Heidegger (Das Ding/A Coisa) é uma imagem e imagem não tem enigma. Não custa nada frisar que a Coisa existe em sua exata natureza e persevera – atua – desprendida da figuração, e é provável que tenha dado origem ao deus babilônio Shamash; às cocléias, homares e conclins; à peônia que pende rente à neve; ao bate-bate de atabaque do batuque; ao acaso que impera. A Coisa – o Outro em exclusão interna. Escavar na ilusão este ponto (.) – quantum – em que a ilusão mesma se transcende, se arrasa, confessando que aí está apenas como significante: um exemplo – a palavra ‘Jarra’ –, de ‘A Jarra de Heidegger’, é significante enquanto essência daquilo que não contém nada. Outras jarras significantes: casca de laranja, de lagosta, de cebola, de crustáceo, de réptil, de sequóia, de tartaruga, de caracol, de ovo, de pão. A jarra de Heidegger – casca de vidro – é um objeto que circunda o Vazio e tenta aclarar a existência deste Vazio no centro do real. Quanto mais o objeto – a Jarra – é presentificado, mais ele nos abre esta dimensão na qual a ilusão se destroça e aspira a outra Coisa – menos a letra do que o espírito do escritor”. A Coisa é babel, bárbara, balbuciante. A Coisa existe mesmo quando não há. As palavras sopraram antes da Coisa e cada sopro delas é um ramo de sutis idílios. A palavra neve: sônica, nívea.

Em busca do tempo perdido




Félix Bonfils

Acropolis from the Theseion Plaza [Athens, Greece]

1868
Ver 12 obras-primas
da Galeria Saatchi

Lou Trigg

Antonio Vinciguerra

Reinhold Lilie

Dan Pero Manescu

J. Holloway

Louis Greco

Miki Carmi

Patrick Trotter

H. Kemp

Gordon Parke

Gottfried Helnwein

Vacon Vacon

Meus filhos: Shânkara e Matheus

Odile Redon (1840-1916)

Se fossem do Deus, somente, as mortes,
seriam impérios aéreos, ravinas solares.

Mas as mortes são nossas,
que nos entregamos às minúcias:

crochê
moeda
chafariz

exalamos um vazio
do fundo mais firme do silêncio.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011


Ver Zaúm,

do poeta Ricardo Corona

http://blogdocorona.blogspot.com/



segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Fred Beckman, 1981

Minha querida amiga, não estou falando do amor entre homem e mulher, mas daquele amor que inclui certa música que circunda os palhais dos coqueiros. Há muito tempo não te amo mais como namorada, sim, isto eu sei. Contudo o que restou de tudo o que senti por você? Um manso perfume entre dois vasos com flores.

Sou teu amigo, claro, (e talvez eu tenha sido apenas isto), mas irrigo este meu amor por ti que se aprofunda quando penso que não te amei sozinho: Algo que estava comigo ainda hoje te guarda num escrínio de relva.

Talvez o amor seja soprar o fogo do outro até que a sombra canse e o deixe mergulhar no vento.

Amor não é possuir, mas semear.

Se tu fosses uma pedra, eu te amaria do mesmo jeito.