sexta-feira, 30 de novembro de 2007

Édouard Boubat


Na única torre do casarão colonial, imitando água fria no búzio, K. desfere à queima-roupa a sentença idílica: “Escutem! Pois, na verdade, uma vez mais vamos arar o campo de Lucana de olhos claros”. Ó Hölderlin, Hölderlin, quanto mais poético, mais real. Cada palavra – matéria fina de toda certeza – a nossa microlíngua a pronuncia e com esta matéria fina tentamos incitar o linho que nos envolve e abisma. O Hino Homérico V (uma nota explicativa à música dos gregos), dedicado à sibila Lucana, finca na retina que é nossa o preceito óptico do califa al-Hakim: “Se o sol que vislumbramos é a sombra do sol, imagine, nesse momento, como é o próprio sol?”. O Vazio do horto no verão, todo de conchas e frutas. A linha das marisqueiras suspensa no aquático. K. recorda uns versos de Alice Ruiz: “Pequeno/tinha um pensamento/a selva/quando crescer. Em algum lugar/na selva/corre grande um pensamento”. Ela ressuscita, cada manhã, com os olhos abertos para que as imagens sigam fluidas na torrente limosa e aprendeu, na caatinga, que a língua dos mortos é de pedra. A cada momento, Lucana, a linha molhada de cílios, cruza, aqui na Villa da Concha (onde nada pode acontecer, a não ser a lenda), com esses fariseus ressoantes e vazios como tambores. Fariseus presos nas sacristias ou nos cartórios, e que só conhecem a letra fria da lei. E passa, Lucana, sob os pórticos da pequena vila, sem o pedrento e a conspiração. Pois esse lugar onde ela vive é Villa da Concha. Nunca vi peixes mais escamosos que os que viçam nesse sumidouro. Ali caules gordos abandonados no lodaçal. A pequena igreja do Carmo, se a vemos daqui do cais de pedra, esconde eucaliptos, figueiras, pinheiros-bravos e o vento muda de lugar, passa antigo pelos cabelos de Lucana, até esvair-se para sempre no perau. Como se rezasse missa n’água, atrás de um fumo leve ou de um rosário de folhas, espio Lucana (ela ainda não me conhece) que desliza na canoa. Villa da Concha, onde não entra nem a morte nem o pecado, onde não entra o mal: a cloaca, o sicário. Aqui, nesse vilarejo à beira-mar, tudo é música de Maria Bethânia, celebram-se as bodas, e a entrega à preguiça é um suave vício. E Lucana, ali na canoa, sua pele interior um pouco molhada, ama o riso, o amor, a divindade. Depois do passeio de canoa, ela encosta-se à varanda e sorve lentamente o chá de laranjeira. Ainda não conhece K., porque a voz de K. vive num casarão colonial, onde passa os dias de sua vida à beira de um túmulo florescido llorando a mares.

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