terça-feira, 30 de abril de 2013


A senhora Quanza
coroada a peixes
entra na chuva

Um pequeno estudo 
sobre Física Quântica


Texto de Fernando José Karl


A tranquila contemplação do objeto natural: a chuva: onde a senhora Quanza entra coroada a peixes. Deixo-me perder neste objeto: a chuva: mas ainda existindo enquanto puro sujeito do conhecimento.
         Se presto atenção a um mantra, desvio meu foco de pensamentos ociosos. Literalmente, a consciência não pode focalizar duas coisas ao mesmo tempo. O mundo externo que existe em nós como um mapa interno principia a ceder à medida que nos tornamos mais eficazes na atenção ao mantra.
         O poeta Rabindranath Tagore escreveu:
        
         Semelhante a uma jóia, o imortal
            não se jacta do número de anos
            mas do ponto cintilante de seu momento.

         Quando há absorção completa do objeto da meditação, o aqui-agora é Samadhi. E quem é o sujeito puro do conhecimento? É aquele que tudo conhece, jamais conhecido; aquele que, destituído do incessante querer, é sem dor e respira fora do tempo e do espaço. Nós não o conhecemos jamais – porque o sujeito puro do conhecimento é que conhece, em toda a parte onde o conhecem.
         A senhora Quanza, coroada a peixes, enraiza-se na chuva. Ninguém jamais viu a chuva, porque o que vemos é a chuva em nossa cabeça.  
         Escreve Ibn al-Arabi: "Ela (a consciência) nem tem o atributo do ser nem do não-ser. Ela nem é existente nem não-existente. Não se pode dizer que seja a Primeira ou a Última."
         O nome técnico da ação instantânea à distância, sem sinal, é não-localidade quântica. A não-localidade (e a transcendência) estão em parte alguma e também agora/aqui.
         Nada existe fora da consciência.
         A consciência é não-local. A consciência é o meio que produz o colapso da onda de um objeto quântico, que existe em potentia, tornando-a uma partícula imanente no mundo da manifestação. O colapso da onda quântica é não-local. Quando vemos sem consciência de que vemos, não ocorre colapso.
         Leio uma história zen:
        
            Dois monges discutiam sobre o movimento de uma bandeira ao vento.
            Disse um deles:
            “A árvore está se movendo”.
            “Não, o vento é que está se movendo”, corrigiu-o o outro.
            Um terceiro monge, que passava por ali nesse momento, fez uma observação:
            “A árvore não está se movendo. O vento não está se movendo.
A mente de vocês é que está se movendo”.

         Os objetos quânticos existem de uma forma muito diferente dos macrobjetos da vida diária. A lua está lá em cima quando não a olhamos? Na medida em que ela é, em última análise, um objeto quântico, temos que responder que não.
         Talvez a mais importante, e mais insidiosa, suposição que absorvemos na infância é que o mundo material de objetos existe lá fora – independente dos sujeitos, que são seus observadores. Há prova circunstancial em favor dessa suposição. Em todas as ocasiões em que olhamos para a lua, por exemplo, nós a encontramos onde esperamos que esteja, ao longo de sua trajetória classicamente calculada. Naturalmente, projetamos que ela está sempre lá no espaço-tempo, mesmo quando não a estamos olhando. A física quântica diz que não. Quando não estamos olhando, a onda de possibilidade da lua espalha-se, ainda que num volume minúsculo. Quando olhamos, a onda entra em colapso imediato. Ela, portanto, não poderia estar no espaço-tempo. Faz sentido afirmar: não há objeto no espaço-tempo sem um sujeito consciente observando-o.
         A experiência que o sujeito tem de um objeto dentro de si proporciona-lhe um senso de existência e de identidade. O fato de que existe apenas o mundo espiritual priva-nos da esperança e nos propicia a certeza. Existe apenas o mundo espiritual; o que chamamos de mundo físico é o mal do mundo espiritual.
          É perfeitamente pensável que o resplendor da vida circule por toda parte, e sempre em toda sua plenitude, acessível mas velado, profundo, invisível, longínquo. Mas ele está ali, sem hostilidade, sem relutância nem surdez. Com a palavra certa acode ao chamado. Essa é a essência da magia, que não cria, mas convoca.
         Quem sou?
         A resposta se esgueira em torno da pergunta, fixando desesperadamente os olhos em seu rosto enigmático.
         De onde vim?
         A resposta se esgueira em torno da pergunta, fixando desesperadamente os olhos em seu rosto enigmático.
         Para onde vou?
         A resposta se esgueira em torno da pergunta, fixando desesperadamente os olhos em seu rosto enigmático.
         O que nós, escritores, podemos aprender com os lagartos ou copiar dos pássaros? Na rapidez está a verdade. Quanto mais rápido o jorro, mais veloz a escrita, mais sinceros nós somos. Na hesitação entra o pensamento. Com a demora vem o esforço de encontrar um estilo, em vez de saltarmos para verdade. Mas se procuramos nos voltar para ver o pensamento, aprisioná-lo nas tarrafas da análise e nas armadilhas das definições unívocas, ele também se esvanecerá como fumaça. Há portanto uma singular significação da linguagem, tanto mais evidente quanto mais nos entregamos a ela, tanto menos equívoca quanto menos pensamos nela, rebelde a toda posse direta, mas dócil ao encantamento da linguagem, sempre aí quando confiamos nela ao evocá-la.
         Bosi diz: “A linguagem é pensamento-som”.
         Provérbio árabe: “Não é porque o céu está nublado que as estrelas estão mortas”.
         O mais insignificante descerra a porta maciça: eis o que tudo é – um ponto (.) – nada mais.
         Um ponto (.) que recebe a alcunha de quantum (unidade de energia luminosa): esse ponto (.), ou quantum, é capaz de deixar a natureza tão flexível, que se torna possível a inexplicável transformação de não-matéria em matéria, de tempo em espaço, de massa em energia.
         A comunicação sem sinal deve acontecer fora do tempo e do espaço: o domínio da potentia que está fora do tempo e do espaço: a não-localidade quântica: a consciência é não-local.
         A não-ação preconizada pelas práticas orientais não é senão integrar-se à ação, a superior, a sublime. As possibilidades quânticas se expandem quando não estamos causando colapso delas.
         Quantum: unidade básica da matéria ou energia: 100 milhões de vezes menor que o átomo mais ínfimo: no nível quântico, a matéria e a energia estão interligadas: devemos aprender a mergulhar no domínio: Algo ou ?: e dali ditar a própria realidade: no nível quântico, matéria e energia tornam-se alguma coisa que não é matéria nem energia: os físicos referem-se a esse estado primordial como singularidade.
         O quantum é invisível: a palavra invisível significa que, além de não ser visto pelos olhos, é também imperceptível para qualquer instrumento inventado pelo homem.
         O ponto (.) em que a coisa-em-si entra mais imediatamente no fenômeno é aquele em que o fio de ouro da consciência ilumina a Vontade/a Pulsão, que jamais pode tornar-se objeto da consciência, a não ser através de uma ideia (Vorstellung) que a representa.
         O fóton (unidade de energia luminosa) é um quantum de luz: cada quantum é feito de vibrações invisíveis: fantasmas de energia à espera de assumir a forma física.
         Que algo tão extraordinário como um estado de consciência surja em consequência da irritação do tecido nervoso é tão inexplicável quanto o aparecimento do Gênio quando Aladim esfrega a lâmpada: a consciência existe, é incontestável, e atrás dela nada existe que possamos perceber: mas ela não existe senão acasalada à linguagem, e não é a primeira que aparece, é a segunda: a função da consciência é a de se perder, obscuramente, na linguagem: a consciência não pode se contemplar a si mesma sem passar pela linguagem.
         A linguagem não tem nenhuma relação conexa com a realidade: não há pensamento sem expressão: a linguagem é um fenômeno emotivo: nós pensamos frases, não pensamos pensamentos: a palavra é a decisiva simplificação: há menos palavras que frases: o número de sons ou de elementos fonéticos contidos nas palavras é muito menos que as próprias palavras: a escrita registra os sons: não existe memória sem emoção.
         A linguagem animal implica uma aderência do sinal com a coisa significada: para que a aderência cesse e o sinal adquira um valor independente do objeto, é necessária uma operação psicológica que está no ponto de partida da linguagem humana.
         Na Física Quântica, as coisas permanecem como possibilidades, até que um ser consciente de fato as observe.
        
        
         A                     B, C, D, F, G etc

           __________
                 Algo
                   ?
              Outro
        
        
         Toda área abaixo da linha não é uma região para ser visitada no espaço e no tempo. A mente e o corpo ficam acima da linha: A é um evento mental, um pensamento: todas as outras letras: B, C, D, F, G etc, correspondem a processos físicos que se seguem a A.
         Os estados mentais são invisíveis e não têm peso. O pensamento é imaterial e não tem nenhuma ligação com algum objeto material. Todas as mudanças físicas no organismo podem estar ligados a uma cadeia natural de causa e efeito, exceto o espaço abaixo da linha depois de A: o Algo ou ? ou o Outro: esse Algo ou ? ou o Outro é o ponto em que primeiro ocorre a transformação do pensamento em matéria: e precisa ocorrer, ou os outros eventos não ocorrerão: essa transformação não leva nenhum tempo nem acontece em algum lugar: a  imagem assemelha-se a uma fila de pessoas passando uma ânfora umas às outras, onde todas apanham a ânfora da anterior, menos a primeira, que a pega não sabendo de onde: ou talvez a pegue de lugar nenhum.
         Na Fonte da Inteligência há pouca diferença entre pensamentos e moléculas: as palavras e as imagens funcionam como as moléculas reais para disparar o contínuo processo da vida.
         Aainda é mistério o instante em que a Natureza criou o primeiro fóton no vazio. Entre um pensamento e outro existe um lapso de silêncio. Algo mais profundo, no domínio do silêncio, cria nossa visão da realidade.
         Aquele que se denomina o Algo ou ? ou o Outro em nós, é aquele que está para além de uma dimensão imaginária, sendo o portador de um tesouro de significantes, isso é, o Algo ou ? ou o Outro é uma instância que é feita de palavras: o significante não é o som pronunciado ao se enunciar a palavra, mas a sua imagem acústica.
         O sim diz respeito ao campo do Algo ou do ? ou o do Outro, pelo fato do sujeito, pela sua inconsistência, só poder aparacer Outrificado.
         Sim, faço do Agora o foco principal de minha vida.
         O observador silencioso de todo processo: só existe matéria se houver o observador consciente: ao toque de um pensamento um neuropeptídeo (molécula mensageira) aflora na existência: o fóton (quantum de luz), não é quase nada, e, porque feito de mínima matéria, pode lampejar dentro e fora da existência.
         A grande capacidade do neuropeptídeo (molécula mensageira) é a de obedecer aos comandos da mente com a velocidade da luz. Supor a existência de um campo invisível que mantém toda a realidade unida.
         Um verso dos Vedas diz: “O que você vê você se torna”.
         No mesmo instante em que você pensa Sou feliz, um neuropeptídeo transforma sua emoção – que não tem nenhuma existência sólida no mundo material – numa partícula de matéria tão perfeitamente afinada a seu desejo, que todas as células de seu corpo, literalmente, ficam sabendo dessa felicidade e a compartilham. O Universo foi criado uma vez, mas nós nos recriamos a cada pensamento.
         No Oriente, meditação significa a ausência de objetos na mente. Quando não há pensamentos se movendo dentro de você, há uma quietude. O buraco real clama por um significante que o fixe a um objeto e por uma imagem que lhe dê consistência, mas tudo o que encontra é a marca de um objeto ausente – objeto a – o silêncio.
         De que maneira, no cérebro, um padrão neural se torna um vaso sagrado é uma questão que a neurobiologia ainda não elucidou. Se pedirmos para alguém fechar os olhos e imaginar um objeto, as mesmas áreas do cérebro se ativarão, como se estivessem vendo o objeto. A verdade é que o cérebro não sabe a diferença entre um vaso sagrado que ele vê com os olhos abertos, por exemplo, e um vaso sagrado que ele vê com os olhos fechados, através da memória, pois os mesmos neurônios são ativados. Tanto faz se o vaso está fora ou dentro do cérebro, um padrão neural é que constrói o vaso sagrado com a forma de uma imagem. O vaso sagrado-objeto e o vaso sagrado-imagem, ambos são reais para o cérebro que, depois, repassa as informações sobre o que viu e sentiu sobre este vaso sagrado para todo o corpo.
Tudo o que nos cerca, e nós mesmos, é apenas restolho de um colosso invisível: somos o grande envergonhado que se faz pequenino: não há nada mais atual que a grande infância esquecida: as sombras só ganham vida quando carregadas pelo desejo: a presença insidiosa do desejo: pois o desejo é o cerne da magia: dir-se-ia que é uma lei do espírito só encontrar o que não procurou: o acaso é fundamental: as partículas não seguem o bom senso: o essencial não ocorre no espaço e no tempo.     

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