quinta-feira, 21 de janeiro de 2010



mitologia do Ocidente: mitologia da paixão / um homem
clama a Deus por sua alma que arde: Santo Agostinho e as
trapaças da dúvida / Nosferatu senta-se com sua futura
vítima lamentando-se por séculos de solidão / mas estamos
salvos: Gauguin inventou para nós uma nova metafísica,
nos deu a nós mesmos — os modernos — se não uma nova religião ao menos uma nova religiosidade / uma arte sem deus: uma arte deificada / e a veneração foi geral / os homens
— inteligentes — do século XX temos a forma mais cívica
de religiosidade: a Arte! paixão furiosa por inventar:
Ocidente / paixão pelo impossível / e a fé necessária:
êxtase em Santa Teresa / a orelha amputada de Van Gogh /
a necessidade do ato: a fé — a busca — o impossível /
tentativas do impossível (Bataille) / tentativas de mais altas
realidades / além de tudo isto que nos comove:
makios / ilusões & desilusões / encantos & desencantos /
a ilusão dos homens “livres” / sempre tanta tolice,
tanta tolice! / inventamos para nós, também, o Oriente: os
crisântemos e até as barbas de Chuang Tzu / tudo para
recriarmos / é um recriar e um reacreditar: pensar outra
vez o mundo / poder comparar e - com um pouco de sorte -
poder compreender / mas não / optamos pelo voluptuoso
sofrimento / esse que só o Ocidente pode nos dar /
ah, o paternalismo de nossa querida civilização / - não
há nada como a nossa casa - / condenados a pensar e a ser
de acordo com leis naturais que nos são alheias: / a
História, nossa mãe onipresente / a que está a ponto
de romper a caneca / as alternativas são poucas:
enlouquecer / ou santificar-se / a virtude do autismo ou
a humildade eremítica / salvar-se, pela espada ou pelo
perdão / mas salvar-se / isso clamamos isso reclamamos /
A. Artaud se dá por inteirado (não é recomendável negar
a ficção — esta — de forma extrema / amável, muito amável
a imaginação do homem puro carece de efeitos especiais /
o objeto da metáfora é a metáfora / não há intermediários entre a realidade e quem a pensa / “somos mortos com permissão” Lênin / somos o peito e somos a espada / Kandinsky descobre a pintura abstrata vendo um quadro seu ao revés /outros descobrem o mesmo — em essência — sem necessidade de ver ao contrário: se foram deste mundo / perderam a fala / voluntariamente perderam a cabeça / eis aqui uma cabeça / povoada de ideologia / de moral / os bons políticos / as boas
donas de casa / também os bons artistas necessitam de uma /
certamente, outros esperaram a Graça / uns poucos não
esperaram nada / São Francisco ensinava a pobreza
para nada / sem graça sem céu sem bem-aventurança
um cristão taoísta? /todos os misticismos se tocam /
todo místico descobre verdades que o fazem transcender
sua própria doutrina / “se encontrar o Buddha, mate-o” /
ah, as pás dos moinhos, Sancho! As glórias
de Alexandre da Macedônia não desapareceram no pó /
se resolveram no pó / esse transmissor, gerador
de história / Gandhi / a música de Portugal / o touro / o
de Picasso e os outros / as cinzas de Gramsci — o poema
de Pasolini e as cinzas de Gramsci — as folhas de uma
árvore que neste momento caem e que não vejo / o pulso;
o impulso / o beijo / a fé: invento do coração / e a
palavra que é fé / o último fogo que também será
o primeiro fogo / Alícia, ah, Alícia / a lua sempre
alheia / o peyote / os vulcões do México / os vulcões
da Costa Rica / a água a cascata o estrondo / o
estrondo fenomenal das coisas / a fricção das
coisas com o ar / a fricção das coisas com as
coisas / (um corpo sobre outro) fricção & energia /
produção ininterrupta / sem amor sem horror / o tempo
não existe / a vida sim.



Víctor Sosa, do livro Sunyata & Outros Poemas.
Tradução: Claudio Daniel.

Um comentário:

Luiza M. Nogueira disse...

que preciosidade a história da arte, da filosofia, da religião e um pouco de humanidade nesse poema! Confesso que tendo apenas Van Gogh no poema me cativou mesmo muito! O tempo serviu de panorama para tanto e no entanto "não existe", mas "a vida sim". Um fechamento magnífico, quanta sabedoria!

Beijos