quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Ao bater do meio-dia, a gueixa Yuki entrava na tina de Ofurô, a nudez dentro da tina, onde os perfumes derramados davam à água um tom cristalino de nada: depois uma carpa a penetrava, gozoza, de escamas macias, a carpa ia e vinha e friccionava as fendas da gueixa com o cerimonial de quem celebra um culto noturno; e embrulhada num céu que não tinha fim, a alma de Yuki — céu de seda — e, num dos recantos de seu mistério, a gueixa ondulava suavemente os quadris, dando aqui e além certo olhar ao jardim lá fora, entre árvores silenciosas - o jardim de pedra.


O resto da tarde, se havia luz que salpicasse as profundezas do horto, a gueixa Yuki passava lendo na Sala de Chá, e ali a mobília era de vime e os pequenos vasos de flores de cerejeira calavam cada mágoa, cada ira.


Um jardim de pedra; aí, quando nele estava, Yuki saboreava os escritos de O Livro do Vento, do poeta Syn Li. Enquanto iam sendo lidas as pequenas odes — a música na vitrola refrescava o ar —, e a gueixa agitava o leque e pensava na carpa, no céu, na seda.

Um comentário:

Cibele Cambuci disse...

Oie Fernando!
Então, achei o livro no sebo Casaaberta em Itajaí.
Cheio de dedicatórias, no começo, para uma mesma mulher. Márcia, acho.
Então, eu comprei o teu Brisa e Bizâncio quando
perguntei se tinha outro!
E que outro!!

Bjus