
terça-feira, 1 de abril de 2008
Sonhei que fazia amor com um automóvel branco, um Citroen DS. Dois homens conduziam esse carro, desafiando-me a ficar em cima da carrosserie, muito lisa e escorregadia, enquanto guiavam o carro a grande velocidade. Consegui manter-me e à medida que ia ganhando mais confiança comecei voando ao longo do carro, depois ao lado e por fim aterrando no escorregadio capot, sentindo a mais exaltante sensação de liberdade, de elegância, de destreza. O carro continuava seguindo a alta velocidade. Eu voava a seu lado, braços e pernas estendidos, dando saltos como bailarina. Vestia roupas curtas, transparentes, fluentes sobre o corpo nu. Voava e ria com a mais pura alegria, tocando por vezes no carro, até que por fim me achei de pé no guarda-lamas traseiro. Com os braços e as pernas agarrados ao carro, lentamente senti o meu corpo cobrir-se duma espécie de inúmeras bocas que se colavam à carrosserie como ventosas de polvo, mas com a forma de bocas humanas. E eram muitas, muitas, muitas. Com a velocidade incrível sentia o êxtase.
Fragmento do livro Anacrusa, de Ana Hatherly
Fragmento do livro Anacrusa, de Ana Hatherly
Chego ao casarão e uma chuva noturna, com a lira destemperada, lava tudo, desde a carniça do sovaco da cárie que trago na alma até às plantas ressequidas a chuva repentina lava. Ia entrar, mas prefiro fechar os olhos e relembrar aquela história que me contou um velho marujo no bar Gallo del Viento. Dizia-me ele que, em sua casa à beira do ancoradouro, havia uma ave-do-paraíso morta em cima da geladeira Cônsul. Ave-do-paraíso que morreu, depois que provou carne de cavalo estragada. Cavalo que morreu de tanto carregar baldes de água para apagar o fogo que se alastrava pela casa. Fogo causado pela queda dos longos círios nas cortinas de linho branco. Círios postados ali para o velório, enquanto as labaredas iam e vinham lambendo os móveis, os tapetes. Velório? É, velório de sua mulher, que estava na sala de jantar, quando ele entrou desesperado em casa e a matou, pensando que ela fosse um gatuno, com certeiro pontaço de faca na altura do coração. Claro que não ri da história do marujo. Me benzi com peixe e talos de arruda, parti águas de oceano para deslocar abismos, caí em cisternas e escutei Rimski-Korsakoff num disco de vinil usado e se eu cerrasse os olhos agora e escutasse com atenção o séptuor que a senhora do gelo desfia na varanda? O séptuor que diz assim:
HOSOMI
Piscar do espírito:
o paraíso
no sonho
te esquece entre águas e conchas
e, súdito,
ao acordar
te respira
HOSOMI
Piscar do espírito:
o paraíso
no sonho
te esquece entre águas e conchas
e, súdito,
ao acordar
te respira
Assinar:
Postagens (Atom)




