O ESPELHO DE VENTO-E-LUA
Em um ano, o sofrimento de Kia Yui se agravou. A imagem da inacessível senhora Fênix consumia seus dias; os pesadelos e a insônia, as suas noites.
Uma tarde, um mendigo taoísta pedia esmolas na rua e proclamava que podia curar as doenças da alma. Kia Yui mandou chamá-lo. Disse-lhe o mendigo: “Seu mal não sara com remédios. Tenho aqui algo que o curará se seguir minhas indicações”. Tirou da manga um espelho polido nas duas faces, com a seguinte inscrição: Precioso Espelho de Vento-e-Lua. Acrescentou o mendigo: “Este espelho vem do Palácio da Fada do Terrível Despertar e tem a virtude de curar os males causados pelos ventos impuros. Evite, porém, olhar o verso. Amanhã voltarei para buscar o espelho e para felicitá-lo por suas melhoras”. Não quis aceitar as moedas que lhe foram oferecidas.
Kia Yui olhou a frente do espelho, e aterrorizado atirou-o longe. O espelho refletia sua caveira. Amaldiçoou o mendigo e quis olhar o verso do espelho. Lá do fundo, a senhora Fênix, esplendidamente vestida, lhe fazia sinais. Kia Yui sentiu-se arrebatado, atravessou o metal e realizou o ato de amor. Fênix acompanhou-o até a saída. Quando Kia Yui acordou, o espelho estava ao contrário e novamente lhe mostrava a caveira. Esgotado pelas delícias do lado feliz, Kia Yui não resistiu à tentação de olhá-lo uma vez mais. A senhora Fênix lhe fazia sinais, e ele cruzou o metal novamente e novamente fizeram amor. Isto ocorreu umas quantas vezes. Na última, dois homens o prenderam quando saía e o acorrentaram. “Eu os seguirei”, murmurou, “mas deixem-me levar o espelho”. Foram suas últimas palavras. Encontraram-no morto, sobre o lençol manchado.
Tsao Hsue-King, Sonho do aposento vermelho. Relato incluído no Livro dos Sonhos de Jorge Luis Borges.
terça-feira, 1 de abril de 2008
CASA DA AGOA DO CHAFARIZ
Caída no lajedo da Casa da Agoa do Chafariz, a velha pronuncia a palavra: Qadós. Um aguar de onda marinha umedece o rosto de Hilda Hilst em decúbito dorsal rente à árvore. Envolta em eflúvios de água de colônia, ela agoniza e não há cítara nem pedra que a ressuscite. Com arraia tatuada em suas costas, com um olho tatuado acima de seu púbis, Hilda espanca com chapéu de chuva uma das janelas da Casa da Agoa do chafariz. Hilda Hilst traz hua cabeleira de limos, chêa de caracois, de michilhoens, ou caramujos e, ao peito, a música e um talim de pelles de enguias. Ainda é tão cedo que Hilda Hilst descerra a cortina de cristal e contempla o vento nas ramas. No altar, as lágrimas da deusa Orín são abandonos da chuva num dos degraus de mármore. Ou a deusa borda lágrimas na tempestade porque não voltarás? O marasmo dessa noite, através das cortinas de contas de cristal, olha para a ode que grafito sobre o dorso do peixe persa.
Caída no lajedo da Casa da Agoa do Chafariz, a velha pronuncia a palavra: Qadós. Um aguar de onda marinha umedece o rosto de Hilda Hilst em decúbito dorsal rente à árvore. Envolta em eflúvios de água de colônia, ela agoniza e não há cítara nem pedra que a ressuscite. Com arraia tatuada em suas costas, com um olho tatuado acima de seu púbis, Hilda espanca com chapéu de chuva uma das janelas da Casa da Agoa do chafariz. Hilda Hilst traz hua cabeleira de limos, chêa de caracois, de michilhoens, ou caramujos e, ao peito, a música e um talim de pelles de enguias. Ainda é tão cedo que Hilda Hilst descerra a cortina de cristal e contempla o vento nas ramas. No altar, as lágrimas da deusa Orín são abandonos da chuva num dos degraus de mármore. Ou a deusa borda lágrimas na tempestade porque não voltarás? O marasmo dessa noite, através das cortinas de contas de cristal, olha para a ode que grafito sobre o dorso do peixe persa.
domingo, 30 de março de 2008
Misantropo
Teu olhar tem encantos como essa pedra ou o cheiro de ervas fervendo.
Encantos de chá ou de sangue derramado no altar do sacrifício, teu olhar.
Entrei no local sagrado onde, sob a pedra, crepitavam brasas rastejando no lastro do teu olhar.
Desde muitos séculos há leveza no lenço pendurado no varal. O vento sopra por trás e eu sou o vento através do teu olhar.
Escravizado pela alma que habita esse espelho fui, um dia, a alma distorcida desse espelho.
Alma do espelho, porta do teu olhar.
Abismo que a qualquer matéria dissipa, grito sufocado pela sombra dos teus cílios, tétrica caverna onde me desloco cristalino com ira de navalha,
torto, torpe, arranco da órbita
esse teu olhar.
Adriana dos Anjos
Teu olhar tem encantos como essa pedra ou o cheiro de ervas fervendo.
Encantos de chá ou de sangue derramado no altar do sacrifício, teu olhar.
Entrei no local sagrado onde, sob a pedra, crepitavam brasas rastejando no lastro do teu olhar.
Desde muitos séculos há leveza no lenço pendurado no varal. O vento sopra por trás e eu sou o vento através do teu olhar.
Escravizado pela alma que habita esse espelho fui, um dia, a alma distorcida desse espelho.
Alma do espelho, porta do teu olhar.
Abismo que a qualquer matéria dissipa, grito sufocado pela sombra dos teus cílios, tétrica caverna onde me desloco cristalino com ira de navalha,
torto, torpe, arranco da órbita
esse teu olhar.
Adriana dos Anjos
Assinar:
Postagens (Atom)



