sábado, 29 de março de 2008

7 pesadelos de Roger Ballen
POEMA TIRADO DE UMA OBSERVAÇÃO
DE WITTGENSTEIN
SOBRE O PENSAMENTO

Pensar é um espécie de falar?
Wittgenstein


Recite a frase:
silêncio de nenúfar na nuca

Uma vez pensando:
silêncio de nenúfar na nuca

Outra sem pensar:
silêncio de nenúfar na nuca

Então pense apenas os pensamentos
sem

palavras
A CÂMARA SECRETA

A câmara secreta alude ao oco do cristal,
onde respira o pavão na escada:
a sombra risca um rio na sua cauda.

Castelos e imperadores não cabem
no centro imóvel da oca câmara.
Apenas uma voz pura penetra a parede fina

do cristal e retorna rajada de paraíso.
Algumas palavras têm permissão
de sondar os augúrios da câmara secreta.

E que augúrios seriam ali no oco?
Fontes que se entrelaçam para que
--- o ar --- não cesse em nossos pulmões.
OLHO DO FURACÃO

Estou no olho do furacão,
bem no centro da tempestade,

na boca do tubarão,
no fundo do poço,

com sede e com frio,
sem oásis, sem mulher nua,

sem moeda de ouro, sem cavalo branco,
sem brisa no Saara,

estou só eu no espelho,
toco o espelho não toco em nada,

já estou sem ossos,
cara a cara com Deus,

que estava fora do olho do furacão,
observando-o com serenidade.
FULGOR DE UM LADO, CRISTAL DO OUTRO

Cindir o fulgor do cristal?

Não! O que cinde é o cristal,
e o fulgor aguarda no cais,

ou no cais cristal decepado em dois.

Cindir o cristal, nunca o fulgor.
Cristal é cristal, mesmo sem fulgor.

Fulgor tem nome: brevíssimo
como o poema-cristal.

Origens da escrita chinesa
TABUINHA DE BARRO

Com cálamo o mandarim fixa
a elegância do vento na tabuinha de barro.

O vento leva embora o vento.
A elegância adere à tabuinha de barro.

O mandarim lava-se de toda agonia vã,
depois adormece no areal.
PEÇA DE CERÂMICA AZUL

O que pode nos ensinar a peça de cerâmica azul?

Peça de cerâmica azul ofuscada pela sombra
de uma idéia preconcebida.

Única a existir na varanda da casa,
a peça de cerâmica azul torna azul o silêncio.
O JARDIM DA SACERDOTISA

No teu corpo tu me pertences,
sete anos de brisa no cativeiro.
Foste da mesma matéria do ópio
que sorvi no cais à espera da barca.
Acerco-me de ti, música de loucos,
para queimar o pulmão nos astros.
O silêncio --- escuto-o de olhos fechados ---
conduz aos espinhos e ungüentos.
Na verdade, o pomar de abios
só existe nos sonhos do pássaro,
que aguça o tímpano e recorda
que no teu corpo a voz sem voz
habita no Jardim da Sacerdotisa,
que à noite venta, de manhã é luz.