A PEQUENA MORTE DOS AMANTES

Em órbitas excitadas os amantes respiram,
sopro e olhos, se consomem na trama da neblina.
Vem a seta entre árvores e os assassinam,
desterrando-os de pedras lisas e galhos,

coroando-os com essa inútil sombra
que é fim e bruta vertigem.
Jazem os amantes, luzes esquálidas na curva do rio,
com os pescoços varados pela seta.

Os amantes residem agora nessa região
de amor sombrio e ramadas que ondulam,
nessa conjuração de novas esferas,

que não os ressuscitam ou ressuscitam apenas
a palavra respiração, envolta em mínima música
e líquidas possibilidades elementais.
A CHINESA DE CABEÇA PARA BAIXO

Penduro a chinesa de cabeça para baixo
depois que a torci, dela vazou água
penduro a chinesa de cabeça para baixo
eu mordo conchas tão finas
a chinesa, de cabeça para baixo,
morde conchas comigo
a brisa esvoaça a frágil chinesa
que não entontece mesmo de cabeça para baixo
eu nem diria que ela respira
eu nem diria que ela é morta
a toalha secando ao vento estival:
a efígie da chinesa na toalha de banho

Chester Michalik


A imagem é meu navio.
Néstor Perlongher